3.11.09

Kung Fu à italiana*

Subestimado por Jackie Brown, Quentin Tarantino volta a tumultuar o mundo do cinema com dois novos filmes: Kill Bill Vols. 1 e 2

Quase uma década após conquistar a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de melhor roteiro original com o anárquico Pulp Fiction, seis anos após seu último filme atrás das câmeras, Jackie Brown, o celebrado diretor americano Quentin Tarantino voltará, ainda este semestre, às telas brasileiras com Kill Bill vol. 1, filme que pratica uma mistura inimaginável de gêneros para contar, em dois “volumes”, a saga vingativa da personagem A Noiva, interpretada pela atriz Uma Thurman. O retorno triunfal é bastante oportuno para uma revisão da obra do diretor, que completou 41 anos, recentemente.

Cinéfilo compulsivo e devorador de gêneros tão distintos como a Blaxploitation, a Nouvelle Vague (sua produtora Band-a-Part é uma referência ao filme de Godard), os filmes de artes marciais da Shaw Brothers e os western-Spagetthi do mestre Sergio Leone, Tarantino instaurou um novo estilo que, indiscriminadamente, dialoga em ritmo frenético de metalinguagem com tudo de mais comercial e experimental, de melhor e de pior que foi produzido ao longo deste primeiro centenário de sétima arte.

À partir de Cães de Aluguel (Reservoir Dogs) o diretor entrou em escala ascendente e com o triunfo de Pulp Fiction, em Cannes, seu nome passou de simples referência do melhor cinema independente produzido na américa, dos anos 1990, para tornar-se um adjetivo recorrente. O que, à princípio, parecia um justo reconhecimento ao talento genial de um jovem diretor que colocaria hollywood e suas velhas convenções de pernas prá cima, rapidamente, tornou-se uma epidemia. Não tardou para que diretores dos mais conservadores começassem a tingir páginas de roteiro com rasas paródias dos impagáveis diálogos de Tarantino e o pior, sob o rótulo de cinema independente, qualquer porcaria com duas ou três seqüências, supostamente transgressoras, passou a ganhar o status de cult movie. Exemplo maior é o filme Amor-à-Queima Roupa (True Romance) que, embora baseado em argumento e roteiro original do próprio Tarantino, por si só não foi capaz de transformar o medíocre Tonny Scott de Ases Indomáveis (TopGun), em um diretor respeitado.

O próprio Tarantino, parecendo prever que o excesso de exposição poderia ser demasiadamente prejudicial a sua reputação de enfant-terrible de Hollywood, depois do estrondoso sucesso de Pulp Fiction - inimaginável para um filme de três horas, com narrativa fragmentada e repleto de situações absurdas -, abandonou a direção, por três anos, envolvendo-se em parcas aparições como ator e assinando roteiros. Em 1997, Tarantino filmou Jackie Brown, cuja protagonista presenteou e tirou da obscuridade a atriz Pam Grier, musa dos filmes com temática blaxploitation dos anos 1970. Criticado por ser narrativamente mais conservador, se comparado a seus antecessores, ao menos alguns elementos em comum unem os três filmes, a começar pela escolha de atores decadentes como foi o caso de Grier e de John Travolta em Pulp-Fiction; a paródia dos filmes de gangster nos dois primeiros filmes e o resgate do imaginário de gêneros periféricos enterrados pelo cinema espetáculo, instaurado com os primeiros blockbusters dos anos 1970, como a saga Star Wars.

Em sua curta trajetória, Tarantino foi precocemente celebrado como gênio para ser julgado, anos mais tarde, por alguns destes mesmos críticos, como um obsessivo iconoclasta e mero deturpador de escolas canonizadas como a Nouvelle Vague. Diante de uma cinematografia tão reduzida e recente, é cedo arriscar veredictos. Resta aguardar o que nos reserva os dois volumes de Kill Bill, mas é inegável que, para o bem e para o mal, à partir de Tarantino, o cinema americano respira novos ares e sobrevoa por horizontes mais amplos. Saber se o jovem diretor vai entrar para o seleto grupo de ítalo-americanos geniais como Scorsese, De Palma, Coppola e Leone é outra questão que só o tempo vai revelar.

*Originalmente publicada na revista Elenco, edição 1 (2004)

Muito além do sargento pimenta*


1967, ano de lançamento de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, foi um ano de álbuns mágicos para o rock.

2007 marca os 40 anos de lançamento do álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band dos Beatles. Celebrações lembram a efeméride pelos quatro cantos do mundo e não é para menos: verdadeiro tratado psicodélico que elevou o rock ao status de arte, Sgt. Pepper’s fomentou uma revolução sem precedentes. Depois dele, música, moda e comportamento jovem jamais seriam os mesmos. Clássico absoluto, é considerado por muitos o melhor álbum de rock de todos os tempos e obra-prima do grupo. Muitos aficcionados pelos fab four defendem o título para o álbum anterior Revolver, mas, justiça seja feita, embora os Beatles já ensaiassem, desde 1965, uma nova alquimia sonora que culminou em Sgt. Pepper’s, o álbum não inaugura os experimentos psicodélicos no rock e nem é a última palavra em expansão musical, o que não é demérito algum.

Um ano antes, o grupo texano liderado pelo tresloucado poeta Roky Erickson, intitulou o primeiro álbum de seus 13th Floor Elevators de Psychedelic Sounds of. Pela primeira vez o termo psicodélico foi associado a música. No mesmo ano, Brian Wilson, gênio por trás dos Beach Boys, motivado pelo desafio de fazer um álbum tão bom quanto Rubber Soul, lançado em 1965 pelos Beatles, esqueceu de vez praia, surfe, garotas e carrões para isolar-se em estúdio e criar intrincadas composições de arranjos inusitados que culminariam no belíssimo Pet Sounds.

Do outro lado do atlântico, na Inglaterra, grupos como Kinks, The Who, Cream e Animals abandonavam o rock de bases negras e rhythm & blues para enveredar pelos caminhos subjetivos do psicodelismo. Um certo James Marshall Hendrix, empresariado por Chas Chandler, baixista dos Animals, abandonaria o ostracismo em sua terra natal e desembarcaria em solo britânico para revolucionar a música e reinventar a guitarra elétrica, à frente de seu Jimi Hendrix Experience. Compositor prolífico, Hendrix cometeu a façanha de lançar duas pérolas em 1967, o álbum de estréia Are you experienced e seu sucessor Axis: Bold as love.

Toda uma efervescência criativa parecia contaminar a produção da época e os Beatles, como agentes multiplicadores e ícones máximos da cultura jovem, tiveram papel fundamental em disseminar este zeitgeist com os álbuns que sucederam Rubber Soul. 1967 foi um ano mágico para o rock e, em tempos de fadiga criativa e bandas que parecem sair de uma produção serial (vide a febre emocore), nunca é demais lembrar à juventude desta geração que Sgt. Pepper’s não foi um fato isolado. Há dezenas de álbuns lançados no mesmo ano com a mesma magnitude criativa. Frutos de uma época em que, em detrimento de parcos recursos tecnológicos – a maioria destes álbuns foram gravados em singelas mesas de som de quatro canais -, havia criatividade, inquietude e invenção de sobra. Uma lista com dez álbuns fundamentais, lançados no mesmo ano, segue, abaixo. Boa viagem!

Love – Forever Changes
Rolling Stones – Their Satanic Majesties request
The Who – Who Sell Out
Eric Burdon & The Animals – Winds of Change
The Kinks – Something Else by The Kinks
The Deviants – Ptoff!
The Byrds – Younger Than Yesterday
The 13th Floor Elevators – Easter Everywhere
Pink Floyd – The Piper at The Gates of Dawn
The Electric Prunes – I Had Too Much to Dream (Last Night)

*Originalmente publicada no site Brasil Wiki. (2007).

Nirvana nunca mais*


O movimento que nunca existiu; as ressurreições de Kurt Cobain e a morte do rock.

Onipresente, em veículos de imprensa do mundo todo, desde o início do ano, a primeira década sem Kurt Cobain tem servido de mote de fundamentadas teses sobre a representatividade do ícone e do movimento, involuntariamente, capitaneado por ele dentro do imaginário pop recente.

Talvez ainda não seja o momento mais oportuno para inventários acerca da influência da produção musical dos anos 1990, pois muitas das facetas reveladas por esta década de transição ainda estão em contínua ebulição. Vide a nova ressurreição do rock celebrada por esta cena de bandas como os Strokes, Kings of Leon, White Stripes, The Vines e afins que, méritos criativos à parte (ou a ausência destes), traz novamente à tona uma grande leva de bandas que emergem das camadas subterrâneas dos selos e circuitos independentes para escalarem as grandes paradas americanas e européias, rumando pelo mesmo caminho trilhado pela geração pós new-wave e o furacão do-it-yourself do punk.

Fato é que, hoje, este suposto espírito de renovação bradado pelos entusiastas deste velho rock de nova embalagem só encontra legitimidade nos experimentos que, sem pudor, apostam em uma alquimia livre de gêneros e ritmos, pois se houve algo de realmente transitório na produção musical dos 1990, seu maior campo de propagação construi-se em torno do fim da dicotomia entre a música orgânica e a música mecânica. Este velho demônio que conduziu o rock e outros gêneros à fadiga criativa vem sendo progressivamente exorcizado no eclético laboratório de niilismo estético de uma geração que, lentamente, condena a figura do compositor e da canção, tal qual a conhecemos no século passado, a um lento fim. Vide o culto ao DJ, a propagação do sampler em gêneros musicais alheios ao universo do rap e da música eletrônica e as novas ferramentas de criação e distribuição musical ensaiadas pela internet.

A pergunta que fica: o que tudo isso tem a ver com Nirvana e Kurt Cobain? Tudo e um pouco mais. Ícone maior do que ficou conhecido como grunge, Cobain, aprisionado à tormenta de sua dependência química e em meio às frustrações com sua meteórica ascensão, sobretudo, devia sentir-se muito decepcionado por ter se tornado ícone de um movimento que nada representou e, de fato, nunca existiu.

Com a explosão de Nevermind e o inesperado sucesso de seu primeiro single Smells Like Teen Spirit a imprensa musical mundial e, consequentemente, a indústria fonográfica, abriram olhos para o fato de que, em cenas locais isoladas, havia uma enorme quantidade de bandas que, oportunamente colocadas lado a lado, poderiam vender uma imagem de unidade em torno de uma revisão inovadora de gêneros, aparentemente, tão próximos como a água e o azeite. A maior via de tráfego estético destas bandas era um som híbrido da urgência punk com o peso e a densidade das bandas embrionárias do heavy-metal. Sex Pistols e Black Sabbath; Blue Cheer e Black Flag. Como uma equação matemática, o som autêntico de bandas oriundas de celeiros do rock independente, como as dos selos Matador! e Sub Pop, berço primeiro do Nirvana, foi transfigurando-se em uma avalanche de cabeludos uniformizados com camisas de flanela, gorros e cavanhaques - cavanhaques estes que, diga-se de passagem, caíram no gosto popular por aqui e, até hoje, estão onipresentes em diversos círculos que pouco ou nada tem a ver com a muralha de decibéis de bandas como Mudhoney, Screaming Trees e Love Battery.

Em suma, de uma forma muito precoce, aconteceria com o grunge o mesmo que ocorreria com o psicodelismo nos anos 1970 e com o punk e pós-punk nos anos 1980. Manifestações que nascem autênticas, são absorvidas pela indústria, rapidamente, embaladas para consumo e dispostas em prateleiras de hiper-mercados e vitrines da alta moda. O que foi vendido em larga escala e defendido até hoje como grunge não passa de uma equivocada coleção de caricaturas das bandas mais representativas e obscuras. Alice in Chains, Pearl Jam e derivações bastardas como Stone Temple Pilots, Collective Soul e Creed formaram um verdadeiro laboratório de clonagem. Muita flanela e cavanhaque, pouca despretensão e legitimidade.

Emblemático desta incoerência é o caminho traçado, ao longo destes dez anos, pelo líder do Soundgarden, o gogó de ouro Chris Cornell que, apesar de támbem ter surgido na Sub Pop e assinar álbuns menos afetados naquele começo de anos 1990, foi praticar sua técnica David Coverdale no supergrupo Audioslave, ao lado dos remanescentes do Rage Against the Marchine, PSTU do rock americano dos anos 1990 que, à despeito de ter mais personalidade do que as bandas citadas acima, também surfou nas ondas progressistas e na larga avenida aberta por Cobain para uma infindável lista de lixo musical aglomerado em um rótulo genérico, à princípio chamado de grunge - termo este utilizado por Bruce Pavitt, sócio da lendária Sub-Pop, para definir o som feito pelo Mudhoney no final de 1988, três anos antes da revolução de Cobain -, até chegar aos genéricos dos genéricos, o rock alternativo, o famigerado indie-rock e afins.

É por estas e outras que, aparentemente, deitado ao lado de Cobain em sua tumba, aos 40 anos, o rock, em suas facetas mais ortodoxas, parece ter morrido de vez e seu fantasma pode até ensaiar outras ressurreições, mas as grandes questões que, hoje, não querem calar foram germinadas em oposição a suposta revolução do mártir Cobain e, mesmo que ainda não tenhamos nomes que possam instaurar um precoce cânone desta transição, o ambiente de experimentação está aí, fervilhando à espera de respostas. Candidatos?

ESQUEÇA O GRUNGE
Um gênero que nunca existiu e dez bandas fundamentais de uma época

Pixies - Egressa dos anos 1980, construiu ao lado dos Jesus & Mary Chain e do My Bloody Valentine todo um referencial estético de bandas que nasceriam na década seguinte, incluindo-se aí o Nirvana. Em 1991, mesmo ano de lançamento de Nevermind, lançaram seu canto do cisne, o genial Trompe Le Monde.
Mudhoney - Pioneiros da fusão psicodelismo/garage-rock/proto-punk, adicionada a uma muralha de decibéis, lançaram vários títulos antológicos pela Sub-Pop, como Superfuzz/Bigmuff, Mudhoney e Every good boy deserves fudge.
Swervedriver - Contemporâneos do Nirvana, estes britânicos de Oxford, pela aparência lastimável, pela urgência de suas guitarras e belas melodias, logo, angariaram o rótulo de crusties, equivalentes ao grunge defendido por Bruce Pavitt .
Afghan Whigs - Liderados pelo grande compositor Greg Dulli, os Afghan Whigs curiosamente nasceram do inusitado encontro de Dulli e o 2º guitarrista em uma cela de delegacia e estreitaram a distância entre o rock e a soul music criando uma sonoridade única.
Pavement - Slanted & Enchanted, o albúm de estréia destes californianos escancarou, sob a sombra do Velvet Undergound, a estética lo-fi no rock. Ouça este álbum e tente encontrar alguma novidade em bandas celebradas, como os Strokes.
Teenage Fanclub - Este quarteto de escoceses renovou em uma enorme lista de belas canções, o melhor do rock dos sixties, seguindo a cartilha power-pop de bandas como Big Star, Byrds, Beatles e Buffalo Springfield.
Ride - Sem a contribuição destes britânicos e dos Stone Roses, Oasis e o tal Britpop jamais existiriam da forma que conhecemos.
Primal Scream - Egresso do lendário Jesus & Mary Chain, Bob Gillespie e sua turma revolucionariam o rock com Screamadelica e abririam caminhos para a fusão de gêneros e a inclusão, sem traumas, de recursos dançantes da eletrônica no imaginário rock.
Dinosaur Jr. - Liderado pelo exímio guitarrista J. Mascis este trio de Boston levaria a equação belas melodias/guitarras urgentes de Neil Young e seu Crazy Horse à enésima potência. Realizaram grandes álbuns até 1992, após Where you Been, a formação original se rompeu e o baixista Lou Barlow lançou grandes álbuns à frente de seu grupo Sebadoh, como Smash Your Head on Punk Rock e Bakesale.
Mercury RevLiderados pelo dissidente dos Flaming Lips, Johnnathan Donahue, o Mercury Rev levou às últimas consequências o laboratório psicodélico de sua antiga banda em títulos como Yerself is steam e Boces.

*Originalmente publicada na revista Elenco, edição 2 (2004).

Fúria adolescente*


Romance de estréia de Nick McDonell, escrito aos 17 anos, revela o vazio de uma geração abastada

Apesar de algumas exceções, a mais célebre delas o poeta Jean-Arthur Rimbaud, autores precoces sempre foram vistos com suspeição pelos círculos da crítica literária. Aos dezessete anos, o nova-iorquino Nick McDonell inscreveu-se nesta árdua seara com o seu romance de estréia Doze.

Escrito durante as férias escolares, o livro rodou, de mão em mão, em um influente círculo de amigos, foi editado à toque de caixa e já ganhou tradução em dez países. A edição brasileira chega as prateleiras de nossas livrarias por iniciativa da Geração Editorial e o jovem autor, hoje com vinte anos, foi uma das estrelas internacionais presentes na 18ª. Bienal do Livro.

Amigo do pai de Nick, Terry McDonell, o escritor e jornalista Hunter S. Thompson, que trabalhou com Terry nos tempos áureos da Rolling Stone, foi um dos que endossaram a obra do rapaz. Alguns críticos mais entusiasmados chegaram a comparar o romance de estréia do menino prodígio com o revolucionário O Apanhador no Campo de Centeio, do recluso e mítico J.D. Salinger.

O enredo conta a saga de White Mike, jovem que trafega pelo jet-set nova-iorquino abastecendo mentes vazias, com drogas reais e a fictícia doze, que dá nome ao romance. A peregrinação de White Mike pelos ambientes freqüentados por jovens da elite cosmopolita americana revela ao longo de festas regadas a sexo, drogas e violência o vazio de uma geração obcecada com o desbunde de uma vida repleta de excessos, que atesta a pérfida indiferença ao mundo a sua volta e tributa com doses maciças de alienação a ausência de pais milionários, que atravessam o mundo em férias ou a negócios.

A comparação com Salinger, a princípio, parece equivocada e ambiciosa, pois é bom ressaltar que o romance que conta a saga solitária de descobertas e sensação de deslocamento experimentada por Holden Caufield, após ser reprovado no colégio, foi ao lado dos expoentes da literatura beat, um dos pilares do espírito contestador que propagaria a revolução trilhada pela geração que despontaria na década seguinte. Imaginar que um texto que retrata uma geração acometida por um vazio doentio possa ganhar as mesmas proporções seria uma ingenuidade tipicamente adolescente, mas é fato que o jovem autor oferece um contraponto perturbador para a imagem de inocente conservadorismo vendida pelos EUA de George W. Bush. Uma nação que se ampara em reducionismos, como a maniqueísta lua anti-terror, para justificar as barbáries cometidas no oriente-médio, após os atentados de 11/9/2001.

*Originalmente publicada na revista Elenco, edição 1 (2004).

Quatro mulheres e um sucesso*


Débora Bloch, Fernanda Torres e Daniela Thomas dão auxílio luxuoso à Duas Mulheres e um cádaver, estréia autoral de Patrícia Melo no teatro (foto: divulgação)

Apesar de, há séculos, freqüentar as mais seletas listas de best-sellers, o romance policial sempre foi estigmatizado como gênero menor da literatura. Decifrar o enigma acerca da polêmica poderia gerar um bom argumento investigativo, mas não é difícil concluir que toneladas de páginas vendidas, à toque de caixa, não renderam aos enredos policialescos uma dezena de autores que conseguissem romper a barreira do mero entretenimento descartável. Os poucos que conseguiram fazer com que o leitor não conseguisse "abandonar" o livro, depois de fechar a última pagina, como Raymond Chandler e Dashiel Hammet são rara exceção em uma galeria de personagens que costuma fisgar o leitor com a simples oferta de um descartável passaporte para a aventura.

É nesta árdua e ingrata seara que Patríca Melo vem revelando seu ímpeto criativo desde o romance de estréia Aqua Toffana. Seu primeiro grande êxito comercial foi Matador e, desde então, a autora paulistana entrou em escala ascendente, acumulando prêmios internacionais e lançando mais dois romances Elogio da Mentira e Inferno. Além das duas tramas policiais, Patrícia vem se envolvendo em outros projetos, roteirizando filmes, realizando trabalhos para a televisão e experimentando dar voz a suas personagens através do teatro.

A primeira incursão de Patrícia na dramaturgia ocorreu em 1987, quando adaptou A Doença da Morte, texto da escritora francesa Marguerite Duras. Quase quinze anos depois, para conceber sua estréia autoral nos palcos, a escritora fez alguns ajustes em um velho texto entregue à Aderbal Freire-Filho e ainda pôde contar com o auxílio luxuoso de três amigas de peso: Daniela Thomas, assinando a cenografia; Débora Bloch e Fernanda Torres contracenando à frente do espetáculo.

Duas Mulheres e um Cadáver narra os conflitos entre a esposa e a amante de um psicanalista e, como reza a cartilha policial, a peça inicia com um homicídio. Herdando o sábio recurso hitchcockiano, uma música evoca os climas de Bernard Hermann e silencia a platéia no exato momento em que todos vêem o psicanalista ser baleado. À partir daí, Ricardo Pavão permanece "morto" em cena e tem início o show de Débora Bloch e Fernanda Torres.

A estória é estruturada em flashbacks que remetem às situações antecedentes ao crime e, tão rápido quanto experimenta-se o ápice dramático no texto de Patrícia, percebe-se que as atrizes promovem um espetáculo simbiótico, pois os traços de personalidade das duas personagens vividas por Deborah e Fernanda parecem, histericamente, somar forças para clonar uma terceira, que sugere estereótipos do pensamento médio das mulheres que experimentaram a maturidade independente, depois da chamada revolução sexual dos anos 1960.

Paralelo aos compulsivos diálogos proferidos pelas duas personagens, o texto de Patrícia vai germinando uma lenta expectativa no espectador, envolto em uma trama de suspense acerca de qual das duas cometeu o crime. Apesar de estar sempre ciente deste desfecho que a peça reserva, o que realmente sacia o grande público é a agilidade imposta pelas duas atrizes enquanto satirizam relacionamentos e revelam suas paranóias e obsessões em diálogos tingidos pela ironia do humor negro.

Depois de infindáveis discórdias com os executantes da reforma da casa de Beatriz (Débora Bloch) e remissivos acessos de tosse de Ana (Fernanda Torres) quando, enfim, chegamos a reconstituição dos fatos que levaram ao assassínio do psicanalista temos a surpresa final e, no calor da revelação, somos tomados pela nítida impressão de termos fechado a contra-capa de um pulp fiction.

Se o espetáculo parece não resistir muito tempo na memória do telespectador, após sua jornada nos palcos, Patrícia submeterá o texto às lentes atemporais do cinema. Saber se a verborragia de Duas Mulheres e um Cadáver encontrará tradução na linguagem cinematográfica é ver para crer.

*Originalmente publicado na revista Cenário, edição 21. (2000)

Memória de chumbo*


O terror da ditadura transformado em ode à liberdade em Lembrar é Resistir**

Do lado de fora do antigo DOPS – Departamento de Ordem Política e Social, um grupo de pessoas aguarda em fila, cada uma delas portando uma ficha de identificação. Já no interior do prédio em ruínas, são recepcionadas por um homem que registra suas impressões digitais no verso da ficha. Quando a fila se encerra, a porta por onde todos entraram é trancada, com determinação, por um segundo homem e as pessoas ali reunidas embarcam em uma angustiante viagem pela história recente de nosso País.

Idealizado para celebrar os vinte anos de promulgação da anisitia e recordar o período sombrio que sucedeu o golpe militar de 1964, o espetáculo Lembrar é Resisitir comemora um ano em cartaz, promovendo uma comunhão reflexiva entre atores e público e resgatando um passado que, graças aos mecanismos de esquecimento propagados pela imposição do silêncio e ao ufanismo do milagre econômico, financiado às custas de uma dívida externa escabrosa, poucas vezes foi tão bem elucidado.

Toda a ação da peça se desenvolve nas dependências do extinto DOPS, provocando uma interação automática do público com os atores. Alguns nomes da produção, como Izaías Almada, que assina o texto com Analy Alvarez, foram encarcerados naquele mesmo lugar e testemunharam muitos dos momentos resgatados na peça. O texto baseia-se em fatos reais, mas apropria-se da ficção e registros da época para celebrar, com delicadeza, a força dos que resistiram com o próprio sangue, fazendo perseverar a democracia e a liberdade. Sem jamais recorrer à representação explícita da violência praticada contra os prisioneiros, o texto enclausura o público no drama individual de cada relato apresentado, possibilitando uma rica aproximação com o panorama coletivo da época.

Peregrinando pelos escombros do velho edifício, a platéia, progressivamente, absorve a amarga atmosfera que envolveu aqueles dias. Acompanhando a trajetória de Marcelo, ator que é preso logo no início da peça, visitamos a sala do superior dos dois agentes que encarceraram o rapaz. Ao fundo da mesa do homem, uma bandeira brasileira e um poster assustador do general Médici, simbolizam os anos de chumbo. Entre divagações sobre futebol, abuso sexual de prisioneiros e carreiras de cocaína, o homem atenta a equipe para o fato de que devem prender mais subversivos e que cada prisão deverá gerar, através de delações sob tortura, pelo menos mais seis presos. Tais metas fazem parte de uma concorrência interna da instituição onde as equipes com maior número de presos recebem premiações em dólar.

Neste ambiente de sórdida competitividade, mergulhamos no inferno do cárcere, visitando celas e prisioneiros políticos das mais diversas origens: atores, atrizes, cantoras, padres e até a mãe analfabeta de um subversivo, presa como isca para que os militares cheguem ao filho. Cela após cela, o público testemunha as atrocidades cometidas em nome da ordem e se comove, às lágrimas, com a força hercúlea de quem resistia.

No decorrer do espetáculo, é possível fazer uma leitura cronológica dos fatos históricos que levaram a abertura política. Pressionados pelo sequestro de um embaixador americano, os militares são obrigados a libertar 70 presos políticos que serão exilados no Chile, entre eles, um padre é escolhido e passará a integrar o grupo dos que, vivendo clandestinamente em outros países, denunciariam o silencioso holocausto à entidades internacionais que defendiam a anisitia e os direitos humanos, provocando forte repercussão internacional e alertando a opinião pública brasileira sobre os excessos cometidos pelo regime.

No ato que antecede a promulgação da anistia, o público é conduzido a uma cela vazia onde um cinto de couro que pende do teto, formando uma forca, alegoriza o suposto suicídio do jornalista Vladmir Herzog. Os laudos que confirmaram o assassinato de Herzog e do operário Manoel Fiel Filho, nas dependências do II Exército, culminaram na demissão de seu comandante, o general Ednardo D’Ávila e, logo mais, na demissão do ministro do exército, Sylvio Frota. O caminho para a abertura era irreversível.

Aos que vivenciaram o período sem jamais ter a possibilidade de compreender tais fatos e aos que observam o passado, sustentados pela liberdade que herdaram desta geração marcada pela dor e pela opressão, Lembrar é resistir revela-se, ao final, muito mais que um convite para exorcizar o passado, pois mesmo que a luta pela democracia não tenha sido em vão, os propósitos que moveram estes jovens à sangrenta trajetória aqui representada, ainda continuam a espera de soluções. Aos que ainda carregam dúvidas, o retorno ao mundo miserável do centro de São Paulo, oculto através da porta que nos credenciou a este belo exercício de reflexão, oferece uma lamentável prova de que, sim, ainda há muito por fazer.

*Originalmente publicada na revista Cenário, edição 20 (2000). **Foto: Nezito Reis (relação dos nomes, aqui)

Glauber através do espelho*



Ensaio de Gilberto Felisberto Vasconcellos inventaria a ausência do polêmico cineasta (cartaz original de Rogério Duarte)

Há duas décadas, a voz de Glauber Rocha foi silenciada por sua precoce morte. Alívio para alguns, a partida do inquieto cineasta enterrou muito mais do que suas controvérsias. Desde então, o cinema brasileiro afundou em sucessivas crises, abdicou do diálogo com seu próprio universo e a manipulação estética da teledramaturgia passou a ser espelho de um povo que, diariamente, prostra-se diante da tv para abortar a manifestação de sua identidade.

Gilberto Felisberto Vasconcellos, intelectual da envergadura polêmica de Glauber, ressucita o espírito do cineasta em Glauber Pátria Rocha Livre e esmiuça a obra do autor em busca dos sintomas desta patologia que se abateu sobre o País, após duas décadas de aniquilação ideológica e o estabelecimento de uma democracia mediada pela especulação financeira e a manipulação audivisual das “transformações” políticas e sociais.

O ensaio analisa a obra completa do cineasta, com ênfase nos filmes Deus e o diabo na terra do sol, Terra em transe, A Idade da terra, e evidencia um largo paralelo entre a obsessão de Glauber pela tragédia nacional instaurada com o suicídio de Getúlio Vargas e a derrocada dos projetos enterrados com a deposição de Jango, com os caminhos trilhados pelo País, após a reabertura politica e a unificação de um apático senso comum, articulado pelo monopólio televisivo. Fiel ao pensamento de Glauber, este oportuno ensaio revela-se fundamental para a compreensão destes nossos tempos.

*Originalmente publicada na revista Cenário, edição 22 (2001).