3.11.09

Quatro mulheres e um sucesso*


Débora Bloch, Fernanda Torres e Daniela Thomas dão auxílio luxuoso à Duas Mulheres e um cádaver, estréia autoral de Patrícia Melo no teatro (foto: divulgação)

Apesar de, há séculos, freqüentar as mais seletas listas de best-sellers, o romance policial sempre foi estigmatizado como gênero menor da literatura. Decifrar o enigma acerca da polêmica poderia gerar um bom argumento investigativo, mas não é difícil concluir que toneladas de páginas vendidas, à toque de caixa, não renderam aos enredos policialescos uma dezena de autores que conseguissem romper a barreira do mero entretenimento descartável. Os poucos que conseguiram fazer com que o leitor não conseguisse "abandonar" o livro, depois de fechar a última pagina, como Raymond Chandler e Dashiel Hammet são rara exceção em uma galeria de personagens que costuma fisgar o leitor com a simples oferta de um descartável passaporte para a aventura.

É nesta árdua e ingrata seara que Patríca Melo vem revelando seu ímpeto criativo desde o romance de estréia Aqua Toffana. Seu primeiro grande êxito comercial foi Matador e, desde então, a autora paulistana entrou em escala ascendente, acumulando prêmios internacionais e lançando mais dois romances Elogio da Mentira e Inferno. Além das duas tramas policiais, Patrícia vem se envolvendo em outros projetos, roteirizando filmes, realizando trabalhos para a televisão e experimentando dar voz a suas personagens através do teatro.

A primeira incursão de Patrícia na dramaturgia ocorreu em 1987, quando adaptou A Doença da Morte, texto da escritora francesa Marguerite Duras. Quase quinze anos depois, para conceber sua estréia autoral nos palcos, a escritora fez alguns ajustes em um velho texto entregue à Aderbal Freire-Filho e ainda pôde contar com o auxílio luxuoso de três amigas de peso: Daniela Thomas, assinando a cenografia; Débora Bloch e Fernanda Torres contracenando à frente do espetáculo.

Duas Mulheres e um Cadáver narra os conflitos entre a esposa e a amante de um psicanalista e, como reza a cartilha policial, a peça inicia com um homicídio. Herdando o sábio recurso hitchcockiano, uma música evoca os climas de Bernard Hermann e silencia a platéia no exato momento em que todos vêem o psicanalista ser baleado. À partir daí, Ricardo Pavão permanece "morto" em cena e tem início o show de Débora Bloch e Fernanda Torres.

A estória é estruturada em flashbacks que remetem às situações antecedentes ao crime e, tão rápido quanto experimenta-se o ápice dramático no texto de Patrícia, percebe-se que as atrizes promovem um espetáculo simbiótico, pois os traços de personalidade das duas personagens vividas por Deborah e Fernanda parecem, histericamente, somar forças para clonar uma terceira, que sugere estereótipos do pensamento médio das mulheres que experimentaram a maturidade independente, depois da chamada revolução sexual dos anos 1960.

Paralelo aos compulsivos diálogos proferidos pelas duas personagens, o texto de Patrícia vai germinando uma lenta expectativa no espectador, envolto em uma trama de suspense acerca de qual das duas cometeu o crime. Apesar de estar sempre ciente deste desfecho que a peça reserva, o que realmente sacia o grande público é a agilidade imposta pelas duas atrizes enquanto satirizam relacionamentos e revelam suas paranóias e obsessões em diálogos tingidos pela ironia do humor negro.

Depois de infindáveis discórdias com os executantes da reforma da casa de Beatriz (Débora Bloch) e remissivos acessos de tosse de Ana (Fernanda Torres) quando, enfim, chegamos a reconstituição dos fatos que levaram ao assassínio do psicanalista temos a surpresa final e, no calor da revelação, somos tomados pela nítida impressão de termos fechado a contra-capa de um pulp fiction.

Se o espetáculo parece não resistir muito tempo na memória do telespectador, após sua jornada nos palcos, Patrícia submeterá o texto às lentes atemporais do cinema. Saber se a verborragia de Duas Mulheres e um Cadáver encontrará tradução na linguagem cinematográfica é ver para crer.

*Originalmente publicado na revista Cenário, edição 21. (2000)

Nenhum comentário:

Postar um comentário